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mostra perfil do autorTexto Escrito por  Aila Magalhães    
Título:

Estação das Perdas

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leituras: 233

 
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Texto:

Há horas em nossa vida que somos tomados por uma enorme sensação de

inutilidade, de vazio...Questionamos o porquê de nossa existência e nada

parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da

vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: As perdas do

ser humano.

Ao nascer,.perdemos o aconchego , a segurança e a proteção do útero.

Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em

perda e nela continuamos. Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo,

outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero,

ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, nos

eleva e nos destrói...

E continuamos a perder...e seguimos a ganhar.

Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que

segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas por que

alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair...E ao perdê-la,

adquirimos a capacidade de questionar. Por que? Perguntamos a todos e de

tudo...Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas,

irremediavelmente deixadas para trás... Estamos crescendo.

Nascer, crescer,.adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer, renascer(?)...

Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros.

Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo

nos é tomado contra a vontade.

Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem

medo de causar melindres. Assim, se nossa tia às vezes nos parece gorda

tememos dizer-lhe isso. Receamos "risar" escandalosamente da

bermuda ridícula do vizinho ou puxar as pelanquinhas do braço da vó com a

maior naturalidade do mundo e ainda falar bem alto sobre o assunto. Estamos

crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros. E aprendemos..

E vamos adolescendo... ganhamos peso, ganhamos, seios, ganhamos pelos,

ganhamos altura....ganhamos o mundo.

Neste ponto, vivemos em grande conflito. O mundo todo nos parece inadequado

aos nossos sonhos...ah! os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos. Sonhamos

dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo. Aí de repente, caímos

na real!

Estamos amadurecendo...todos nos admiram. Tornamo-nos equilibrados,

contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o

raciocínio, a razão acima de tudo.

Mas não é justamente essa a condição que nos coloca acima (?) dos outros

animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo

lógico e racionalmente planejado? (???)

E continuamos amadurecendo....ganhamos um carro novo, um companheiro,

ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de

andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem

querer...Mas perdemos peso!!!

Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e" tascamos-lhe" aquele

beijo estalado...mas apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos,

ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos

honorários e a chave da cidade...

E assim, vamos ganhando tempo....enquanto envelhecemos.

De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas

(ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso...e perdemos

cabelos.

Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos

sonhos, deixamos de sorrir...perdemos a esperança. Estamos envelhecendo.

Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo...afinal, quem

nos garante que haverá mesmo um renascer, exceto aquele que se faz em vida,

pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte, mas

que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em

quando, que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono

que o antecede...

Que a gente cresça e não envelheça simplesmente...

Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie...

Que tenhamos rugas e boas lembranças...

Que tenhamos juízo mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia...

Que sejamos racionais, mas lutemos por nossos sonhos...

E, principalmente, que não digamos apenas "eu te amo" , mas

ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que

saibam-se amados.

Afinal, " o que é o tempo?";

Dedicado a:
Dedicado a: à minha mãe
Data: 29/07/2001
 

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